Animação andreense ‘Dossiê Rê Bordosa’ ganha festivais do país
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–>Um documentário fictício sobre a morte de uma das personagens mais famosas dos quadrinhos brasileiros tem ganhado o público e a crítica dos festivais de cinema do país. Intitulado “Dossiê Rê Bordosa”, o trabalho em stop motion (nome dado para as animações feitas com massinhas) foi produzido pelo Coala Filmes, sediada em Santo André.
Dirigido por César Cabral, o curta-metragem pode ser conferido neste sábado 26/7/2008 na 16ª edição do Anima Mundi, em São Paulo. A animação está na seção “Curtas 10″, que será exibida às 23h. A expectativa é de que o trabalho seja tão bem recebido quanto foi na versão carioca do festival, realizada entre os dias 11 e 20 de julho de 2008, na qual levaram os prêmios de melhor animação brasileira, melhor curta-metragem e melhor aquisição do Canal Brasil.
Além do Anima Mundi, o curta recebeu outros seis prêmios, divididos pelos eventos cinematográficos É Tudo Verdade, Cine-PE e Festival de Cinema de Paulínia. “Estamos muito felizes com essa aceitação do público e da crítica”, diz Cabral.
O curta tenta desvendar o porquê do fim da Rê Bordosa, na época a personagem mais popular de Angeli, em 1987. Por se tratar de uma animação, Cabral pôde brincar com o fato, misturando depoimentos reais, como do próprio cartunista, com outros fictícios. Assim, o boneco de massinha que aparece como sendo o de Angeli é dublado por ele mesmo e tem os seus trejeitos, enquanto a voz da Rê Bordosa foi feita pela atriz Grace Gianoukas, mais conhecida pelo espetáculo “Terça Insana”.
Segundo o diretor, a curta surgiu da idéia de fazer um documentário sobre a história dos quadrinhos brasileiros das décadas de 1970 e 80. “Nós conseguimos um patrocínio da Petrobras e decidimos fechar o projeto apenas na figura da Rê Bordosa”, conta.
No total, a curta demorou dois anos para ser finalizado. “O mercado de animação no Brasil é pequeno. Então, sempre temos que intercalar trabalhos publicitários com os filmes que queremos fazer”, afirma o diretor. Além disso, o processo de trabalhar com os bonecos de massinha é bastante demorado. “Nós conseguíamos filmar cinco segundos por dia”, acrescenta.
Segundo Cabral, cerca de 15 pessoas trabalharam diretamente com o projeto, que começou a partir de entrevistas com Angeli e com Laerte, outro ícone dos quadrinhos nacionais. Em seguida, o “documentário” partiu para os depoimentos ficcionais, incluindo outros personagens do cartunista, como o punk Bob Cuspe e o machão Bibelô. Já a falecida estrela da curta aparece apenas em flashbacks. “A Rê Bordosa é mostrada em imagens de arquivo pessoal e em uma entrevista dada por ela para a TV Cultura, além de uma reconstituição”, diz Cabral.
Depois do Anima Mundi paulista, a próxima parada do “Dossiê Rê Bordosa” será o tradicional Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul, e o Festival Internacional de Curtas de São Paulo, ambos em agosto. Isso significa que a curta tem mais chances de abocanhar outros prêmios. “Estamos tentando encaixar o trabalho no maior número possível de eventos”, completa o diretor.
Site na internet: www.dossierebordosa.com.br.
Personagem não sobreviveu à mudança dos tempos
Talvez a personagem mais emblemática de Angeli, Rê Bordosa estreou nas tirinhas de quadrinhos do jornal “Folha de S.Paulo” em 1984. Adepta da filosofia “sexo, drogas e rock and roll”, ela dizia tudo o que pensava, fumava muito e ia para a cama com qualquer um.
Em 1987, o cartunista decidiu “matar” a personagem. “O Angeli nunca explicou direito o porquê da decisão. Mesmo na entrevista que fizemos para o curta-metragem, ele se esquivou um pouco de falar sobre os motivos”, diz César Cabral, diretor da animação “Dossiê Rê Bordosa”.
Em razão disso, Cabral conta que brincou em seu filme com a idéia de que a razão do assassinato da personagem tenha sido o ego de seu autor. O documentário fictício entrevistou até um psicanalista para analisar o que se passa na mente de um cartunista que mata um de seus personagens. “Uma das teorias que nós damos é que a criatura ficou maior do que o criador. O Angeli não queria ficar conhecido apenas como ‘o cara que desenha a Rê Bordosa’.”
Outra hipótese considerada é a mudança dos tempos. “Começaram a aparecer os primeiros casos de Aids e esse tipo de mulher não se encaixava mais para a época. O Angeli sempre foi muito antenado com o que está acontecendo. A Rê Bordosa não serviria para os anos 90″, acrescenta Cabral.