Recomeçam obras de reforma do Casarão dos Maurício

19/10/2009 – 09h47m
Depois das obras no chamado “prédio da Escola Normal/Fafil”, na Rua Coronel Celestino, 75, que abrigará o Museu regional e será sede provisória do Centro de convivência com a seca, realizadas pelo governo do estado, a prefeitura de Montes Claros iniciou uma nova etapa do processo de restauração de mais um dos imóveis tombados pelo município, conforme decreto-lei de número 1.761, de 28 de setembro de 1.999. O Casarão dos Versiani-Maurício ou Casarão dos Maurício, que fica na mesma rua, número 99, na parte histórica da cidade, terá suas obras de recuperação reiniciadas assim que for concluído o processo licitatório já em curso.
(foto: FÁBIO MARÇAL)

As obras de mais uma etapa de restauração do Casarão dos Maurício contam com recursos de R$ 375 mil, provenientes do FEC – Fundo estadual de Cultura, garantidos através da aprovação do projeto de restauração assinado pela arquiteta e urbanista Clarissa de Oliveira Neves, especializada em revitalização arquitetônica e urbana pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A expectativa é de que a empresa vencedora da concorrência seja conhecida ainda neste mês, para início imediato dos serviços.
Segundo ela, as paredes do sobrado são feitas de enchimento ou taipa, erguidas com varas e tabocas amarradas com cipó, e o espaço é preenchido com barro em mistura com esterco de gado. Os esteios são feitos de aroeira e baldrames de pau-preto ou tamboril, para apoio do assoalho.
De acordo com a viúva do sétimo herdeiro do casarão, João Valle Mauricio, a escritora Milene Antonieta Coutinho Maurício, autora do livro Patrimônio histórico de Montes Claros, a batalha pela reforma do casarão existe há muito tempo.
– O sobrado em uma época foi tombado pela prefeitura, quando Maurício ainda era vivo. Prometeram a reforma e não fizeram nada. Eles dizem que a responsabilidade de manter o sobrado é da família, só que nós não tivemos condições de fazê-la – diz Milene.
Ela diz ainda que a reforma foi idealizada pelo Fundo estadual de Cultura, sendo pouco o dinheiro enviado.
– Depois de tombado, o casarão foi desapropriado, ficando lá, parado. Então, hoje, esperamos que a reforma seja realizada e que seja transformado em um museu, com a história da cidade e dos Maurício que tanto contribuíram. Para isso, eu tenho toda a história dos Maurício para colocar lá. E se a reforma sair vai ser muito bom para o bem da cidade e o resto da história – completa.
Ela ainda revela que só foi conhecer o sobrado depois de ter se casado com João Valle Maurício, e que a reforma é de suma importância para a história de Montes Claros, pois foi construído em 1812.
No livro Serões montes-clarenses, que o falecido escritor Nelson Viana dedicou ao seu marido, ele fala sobre os velhos sobrados, o sobrado nº 99, da Rua Coronel Celestino, que é, segundo o também falecido historiador Hermes de Paula, o prédio mais antigo da cidade, e teria sido retificado por ordem do capitão Pedro José Versiani.
Como dona Milena não chegou a morar no casarão, ela só pode contar às histórias que ouvia de Dr. Maurício:
– Meu marido me contou uma história de seu avô (João Alves Maurício Versiani), que foi o terceiro morador da linha direta na casa. Quando ele se mudou para o sobrado, que foi passado de geração em geração, ele disse que iria ter 12 filhos, e colocar um rapaz em cada porta e uma moça em cada janela, e ele cumpriu a promessa. São quatro portas e oito janelas na frente da casa.
João Valle Maurício escreveu o livro Janela do Sobrado, com um poema para o casarão. Dona Milena revela estar com novo projeto:
– Meu marido gostava muito de contar as histórias do casarão, e de como eram os rapazes da época. Ele tinha uma chácara no jardim Panorama, antes conhecida como Pequi, pena que ele não concluiu todos os livros pra contar as histórias. Agora, eu estou com fotos ilustrativas que acompanham as estrofes do poema, e as fotos mostram a família e o sobrado.
PARTE DO POEMA SOBRADÃO
Velho sobradão da Rua de Baixo
Rua toda feita de saudade
Onde ficou a minha infância
E a minha mocidade
Sobradão dos meus avós
Dos pais dos meus avós
Onde meu pai nasceu
E foi meninos menino vermelho
Menino malino
Sobradão de janelas enormes,
Muitas janelas, enfeitadas de gaiolas,
e as gaiolas enfeitadas de sabiás. (…)
(…) Um dia, quando tudo passar
Você, sobradão, irá guardar
Pedaços de nossas vidas
O tom de nossas vozes
O som de nossos passos
Marcando o compasso do tempo…
São mil braços, sobradão
A desejar abraçá-lo
São mil sorrisos
Mil brinquedos quebrados
Guardados nos quartos escuros
São mil alegrias de crianças
Que com você viveram encantadas
São mil lembranças
Mil ternuras bem amadas
São mil lágrimas, mil saudades
Tudo é você, velho sobradão
É o nosso carinho
É a nossa emoção mais pura
É você, você eternamente
Vivendo nossa cidade
Sendo marco e tradição
Tudo é você
Velho e muito amado
Sobradão

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