Estado do Amapá – Sítios Arqueológicos no Amapá

O Amapá está cheio de sítios arqueológicos. Sítios arqueológicos são espaços ocupados por culturas passadas, constituindo objetos arqueológicos pertencentes a grupos indígenas nômades e semi-nômades e localizados, em conseqüência de perfurações no solo, causadas pela erosão ou por atividades humanas, principalmente a agrícola. Os primeiros sítios arqueológicos do Amapá foram estudados inicialmente por pessoas sem preparo científico adequado, mas que contribuíram, mesmo assim, com seus achados, para o desevendamento da população amapaense.
Atribui-se a D. S. Ferreira Penna a localização oficial do primeiro sítio arqueológico no Amapá. O fato aconteceu em 1872, na região do Maracá (margem esquerda do rio de mesmo nome). O local do achado passou a ser conhecido como Central do Maracá.
Através dos sítios arqueológico é possível o estudo de urnas, igaçabas, machados e outros apetrechos domésticos que, num futuro bem próximo, servirão para que a nossa pré-história seja desvendada.

A região do Maracá

Em visitas científicas realizadas na região do Maracá, Ferreira Penna encontrou diversas urnas funerárias, algumas contendo esqueletos humanos; outras de formas tubulares em sua maioria; outras achatadas, apresentando um simples cilindro coberto por uma tampa arredondada. Também foram encontradas urnas com a forma cilíndrica, representando figuras humanas sentadas num banco, com braços e pernas bem destacadas (urnas antropomórficas). Nestas urnas havia sempre a caracterização do sexo.
De todas as expedições efetuadas no Maracá, a que atraiu mais atenção foi a de Ferreira Penna, que descobriu uma série de inscrições nas cabeceiras do Igarapé do Lago, afluente do Rio Maracá, num local denominado Buracão. O nome Buracão se justifica pela existência de uma imensa gruta localizada ali perto. Vejamos o que diz Ferreira Penna sobre esta expedição efetuada em 1872:

As Urnas do Maracá – Relatório de D. S. Ferreira Penna

Em janeiro de 1872, o governo da Província, então sob a administração de Sua Excelência o dr. Abel Graça, expediu-me instruções para continuar os meus estudos sobre Geografia, Estatística e História da Província, pondo para este fim à minha disposição o pequeno vapor Pará, comandado pelo meu particular amigo o 1º tenente M. Ribeiro Lisboa. Parti logo a cumprir esta missão com a firme resolução de subir o rio Maracá a fim de descobrir o lugar em que se achavam certas urnas mortuárias de forma humana de que eu tinha exatas notícias por uma que o ilustrado dr. F. da Silva Castro, pouco antes oferecido ao Museu Paraense então sob minha administração. Depois de vencer diversas dificuldades e até certas repugnâncias ou objeções, cujas causas eu era, aliás, o primeiro a respeitar, vi enfim plenamente satisfeitos os meus desejos, trazendo dali para a capital uma porção de urnas de diferentes formas, e quase todas cheias de ossos.
Demarcadas e recolhidas à casa de minha residência, coloquei aos que representavam corpos humanos na posição que guardavam nos seus velhos jazigos, em fileiras e em pés.Nesta atitude, vistas a certa distância, elas apresentavam um aspecto singular. A sua cor cúpreo-escura, suas formas tubulares, e as cabeças envoltas em toucas ou turbantes, deixando só aparecer o rosto às vezes colorido, fizeram-me recordar as figuras imponentes dos Caribas, tão belamente descritas por Humboldt, cujos corpos altos, tintos de urnas, meio cobertos até uma das épocas por um pano azul-escuro, assemelhavam-se a estátuas de bronze que se erguiam ao céu no meio dos Steps. Uma segunda vista às florestas do Maracá em outubro de 1872 forneceu-me ainda algumas urnas que as abrigavam do tempo, mas não dos grandes mamíferos que procuravam também este abrigo, lançado por terra às urnas para melhor se acomodarem.
É digno de notar o esmero com que os oleiros indígenas figuravam em relevo os órgãos genitais, tanto das pessoas adultas como das menores e tanto de um como de outro sexo, podendo-se quase afirmar que era nesta particularidade que eles mais se esforçavam para imitarem a natureza. Eu creio que esta circunstância não se pode concluir cousa alguma contra os costumes do povo a quem pertenciam aquelas urnas, pois que para os nossos indígenas nunca a nudez do corpo e a plena exibição de qualquer de suas partes foi objeto o mais contrário da decência do que para nossos primeiros paiz no Paraizo Terreal. No final do relatório que apresentei ao Governo Provincial, em resolução da minha missão, consignei um trecho que peço permissão para transcrever aqui, posto o que seja assunto pessoal. É o seguinte:
´A minha última palavra aqui é para o meu jovem e ilustrado amigo e amável, 1º tenente M. Ribeiro Lisboa, comandante do vapor Pará. Este distincto e bravo oficial da Marinha Imperial não se mostrou somente zeloso e econômico no comando do seu navio; foi também um muito valoroso auxiliar que encontrei. É assim, por exemplo, que ele expontaneamente encarregou-se de determinar a posição geográfica de vários pontos importantes que eu tinha de visitar durante a viagem. Atendendo ao meu pedido fez-me o senhor Lisboa, o importante serviço, quando chegamos ao Maracá, de adiantar-se com um guia e com a maior parte dos trabalhadores em duas montanhas, para fazer extrair as urnas funerárias a que alude em outro lugar, — trabalho que ele dirigiu com tanta insistência e de modo tão complexo que ninguém certamente o faria melhor. Pouco depois de nosso regresso, o oficial Lisboa escreveu e fez publicar no Diário do Grão-Pará um excellente artigo dando notícia geral danossa viagem àquellas urnas, artigo em que sem o pretender exigiu abundantes provas de seu talento e de uma inteligência cultivada com esmero. O assunto, aliás, póprio para excitar o entusiasmo de um mancebo como arte, que no curso da vida humana não procura somente os gozos materiais mas, guiado por sentimentos mais nobres, busca de preferência os deleites reais e inesgotáveis, reservados unicamente aos espíritos escolhidos que constrituem a única aristocracia que Deus estima e que o homem deve respeitar: a aristocracia da inteligência” (Transcrito de A Província do Pará, de 12 de dezembro de 1872).

As inscrições encontradas no Maracá estão servindo de base para complementação de estudos de nossos antepassados Tucuju, mas existem fortes indícios de que elas foram feitas por povos vindos do continente asiático há milênios de anos. Segundo o etnólogo Alexandre Vom Humboldt, esses povos vieram pelo Oceano Pacífico, penetraram no Atlântico e chegaram às terras do Amapá.
Em 1896, o tenente-coronel Aureliano Pinto Guedes comandou uma expedição arqueológica também à região do Maracá. Nesta expedição, Pinto Guedes descobriu uma conta de vidros européia, pertencente ao século XVI. Esta peça constituiu-se em uma das primeiras coleções do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Em 1916, Ferreira Penna esteve novamente na região do Maracá, complementando em 1988 o arqueólogo Klaus Hilbert, do Museu Emílio Goeldi, que identificou a caverna descoberta anteriormente por Guedes, além de nove sítios arqueológicos que servirão de base para novos estudos sobre a Pré-História do Amapá.

Montes Curu, em Cunani

Cunani é uma vila pertencente ao município de Calçoene. Tanto para a pré-história como para a história, Cunani mereceu importância relevada. Na história do Amapá, a vila chegou mesmo a ser República Independente por duas vezes. Uma expedição coordenada por Emilio Goeldi, nos Montes Curu, possibilitou a descoberta de dois túmulos, que tinham a forma de um cano longo, em cuja ponta estavam depositados vasos funerários. Chapas de pedras serviam como laje de cobertura. De forma original, as urnas eram vasos divididos em zonas, umas salientes e outras reentrantes. Um dos vasos tinha a forma de uma terrina alongada, outra de um tabuleiro retangular. A decoração característica foi obtida por desenhos virgulares gregos, e linhas pintadas em vermelho sobre o fundo branco.
A modelagem aplicada era discretamente usada. A maioria dos vasos tinha o fundo perfurado, indicando que o seu uso exa exclusivo para fins funerais. Esta cerâmica representa uma tradição posterior à primeira ocupação do Amapá. Atualmente este acervo arqueológico está exposto na Divisão de Arqueologia do Museu Paraense Emílio Goeldi.


Pacoval (Macapá)

Em novembro de 1985, foi descoberto um sítio arqueológico em Macapá, no bairro do Pacoval (final da Rua Piauí), por ocasião de escavações para construção de uma residência do então prefeito de Macapá, Jonas Pinheiro Borges. Ali os operários encontraram urnas funerárias indígenas. O governo do Amapá, tão logo tomou conhecimento do fato, providenciou a interdição da área e comunicou o acontecimento à administração do Museu Paraense Emílio Goeldi. Por sua vez, o Museu providenciou a vinda de duas arqueólogas que atuaram junto aos técnicos da Secretaria de Educação do Amapá.
Foram realizados novos trabalhos de escavações, desta vez com a coordenação das técnicas do museu.Duas urnas que se encontravam expostas sob o risco de destruição, foram logo retiradas. Após a delimitação do terreno com base na extensão da mancha de “terra preta”, foi feita uma sondagem para se verificar a ocorrência do material arqueológico em profundidade. Desse trabalho resultou um relatório, em que se pedia mais atenção para a pesquisa arqueológica no Amapá.
Na ocasião, foi também elaborado um projeto para salvamento arquitetônico do Sítio do Pacoval. Referido projeto foi aprovado, tendo como fonte financiadora o CNPQ, e apoio do Governo do então Território do Amapá.
A pesquisa de campo teve início em 14 de janeiro, se estendendo até 3 de fevereiro de 1986. Após o levantamento geofísico da área, seguiram-se os trabalhos de escavações com base nas anomalias detectadas. Paralelamente a esse trabalho, foram feitas restaurações de algumas peças nos laboratórios do então Museu Costa Lima, sob a coordenação do Museu Emílio Goeldi.
Parte do material arqueológico do Sítio do Pacoval encontra-se nas dependências do Museu Waldemiro Gomes e do Museu Histórico do Amapá Joaquim Caetano da Silva. Uma amostragem do material coletado foi enviada para análise do teste Carbono 14, que permitirá a datação definitiva e mais precisa. Certamente, teremos informações interessantes num futuro bem próximo, sobre as peças do Sítio Arqueológico do Pacoval, e seus significados no contexto da pré-história do Amapá.

Rio Preto, em Mazagão

O Rio Preto é um braço do Mutuacá, no qual há 20 km acima da foz está localizada a cidade de Mazagão. Durante levantamentos realizados para execução de um Relatório de Impacto Médio Ambiental (Rima) do trecho da BR-156 (Macapá-Laranjal do Jarí), no trecho situado entre uma localidade às margens do Rio Preto e a cidade de Laranjal do Jarí, foram localizados 10 sítios arqueológicos, sendo sete indígenas e três neo-brasileiros. Os trabalhos de levantamento preliminar foram realizados pelos arqueólogos J. Chmyz e S. Sganzerla, do Instituto de Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná.

Inscrições rupestres em Ferreira Gomes (Fotos Inscrições)

Umas inscrições gravadas num rochedo, em baixo-relevo, na região de Tracajatuba (município de Ferreira Gomes), estão chamando a atenção da comunidade científica do Pará e do Amapá, e pode revelar alguns mistérios encravados no oceano obscuro da arqueologia.
Figuras em formas de elipses, animais, cruzes e outras mais, foram encontradas e estão espalhadas num raio de 500 metros na superfície do rochedo. Elas estão dispostas em séries, e juntas formam um painel gigante ao ar livre.
Pela disposição em que elas se encontram, formando espécies de constelações, alguns estudiosos acreditam que ali era local de realização de rituais sagrados, mas as informações ainda não passam de suposições.
Segundo o diretor do Museu Histórico do Estado, Adervan Lacerda, que comandou uma equipe de restauradores para tirar alguns moldes dos desenhos, há muita coisa a ser desvendada nesses achados, que para ele, serão esclarecidos por autoridades da Arqueologia. “Essas inscrições foram descobertas há quatro anos atrás. O próprio dono do terreno veio até nós e, desde 1996 estamos em contato direto com o corpo de técnicos do Museu Paraense Emílio Goeldi, que de vez em quando enviam arqueólogos para fazer todo o trabalho de estudos, mensuração e classificação dos achados”, explicou Adervan.
Não tendo semelhança alguma com outros achados, como as pinturas rupestres do Egito, ou as pedras de Ítaca, ou mesmo as esculturas da Ilha de Páscoa, as pinturas gravadas no rochedo obedecem a um padrão, cujo significado será desvendado, no futuro, pela comunidade científica.
Perguntado sobre o destino que o local terá, Adervan adianta que o Instituto de Patrimônio Histórico dará um destino especial ao local, inclusive a legislação brasileira é bem clara quando ocorrem esses achados, eles passam a ser patrimônio da região.

Gravações nas rochas
O que chama a atenção do observador de imediato, é que essas inscrições foram gravadas em rochas de origem magmática, muito duras, e que faca ou algum instrumento cortante, conhecido à época, não teriam condições de desenha-las. “Não podemos adiantar nada sobre o que ocorreu aqui. O que sabemos é que quem fez, deve ter empregado paciência e instrumentos que poderiam cortar a rocha. Isto é uma um enigma que desafia a nossa capacidade. Por isso mesmo é que o Museu Histórico do Amapá está realizando parcerias com o Museu Emilio Goeldi, no seu Departamento de Arqueologia, para que se estude esse fenômeno com delicadeza”, diz Adervan, complementando que “os resultados dessas inscrições não demorarão muito a aparecer. E qualquer que sejam eles, isto se constituirá em mais um patrimônio arqueológico que a região terá, incorporando-se a outros já existentes, como as 16 grutas-cemitérios encontradas na região do Maracá”.
O local onde foram encontradas as inscrições situa-se em área do município de Ferreira Gomes, a 23 quilômetros da sede municipal.

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