Fernão de Magalhães: Historiador defende naturalidade do navegador em Ponte da Barca
2009-05-25

Naturalidade do navegador ainda causa polêmica

O historiador Amândio Barros, vencedor de vários prêmios devido aos seus estudos sobre os Descobrimentos, apresenta sábado em Ponte da Barca um livro onde defende que Fernão de Magalhães era natural deste conselho e não do Porto ou de Sabrosa. Amândio Barros, investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e especialista em história marítima dos séculos XV e XVI, apresenta no livro “A naturalidade de Fernão de Magalhães revisitada” documentos inéditos que, na sua opinião, indicam que o navegador era oriundo de Ponte da Barca.

Curiosamente, o historiador começou o seu trabalho de investigação deste tema a convite da Câmara de Sabrosa, em Trás-os-Montes, mas rapidamente viu que não podia seguir esse caminho. A “solução transmontana” pareceu ter poucas pernas para andar a Amândio Barros, que na sua obra classifica a hipótese de “muito débil”.

Na “posse de todos os dados disponíveis, e após estudo aturado de todos os elementos conhecidos (…) reafirma-se, por completo, a impossibilidade dessa origem transmontana”, tudo porque a tese se baseia em “fontes muito pouco fiáveis”, nomeadamente um “alegado testamento ditado por Magalhães em 1504” e um outro, “de 1580, que teria sido mandado lavrar por um sobrinho-neto do navegador chamado Francisco da Silva Teles”, defende em declarações à agência Lusa. “São estes os documentos que sustentaram a tese da naturalidade transmontana, mas que há muito que a investigação histórica os classificou como falsos”, conclui o historiador, no livro que apresenta sábado.

Desmontar as hipóteses Porto e Sabrosa

Arrumada a hipótese de Sabrosa, havia que averiguar a do Porto, que se baseia como Amândio Barros explica, “nos termos do contrato celebrado entre Magalhães e Carlos V” para a expedição. Segundo o investigador, nesse contrato, Fernão de Magalhães intitulava-se ‘vizinho’ do Porto. “Ora, palavras como vizinho, cidadão, morador, exprimem uma condição num dado momento e em diversas circunstâncias e não traduzem obrigatoriamente o conceito de naturalidade”.

Por outro lado, acrescenta o historiador, a tese da naturalidade portuense não procede porque “no tempo em que Magalhães nasceu – (…) 1480 – a cidade [do Porto] vivia um período tenso (…) e posicionava-se frontalmente contra a permanência dos nobres dentro dos seus muros; portanto, não é crível que tal ambiente fosse favorável ao nascimento de um fidalgo no interior do seu perímetro amuralhado”.

“Na altura do contrato com Carlos V, o navegador estaria a preparar a expedição a partir do Porto, de onde, aliás, levou elementos para a tripulação, nomeadamente o piloto Estêvão Gomes. Terá assim assumido que era vizinho da cidade”, referiu o historiador à Lusa.

Amândio Barros desmontou outro argumento utilizado para tentar provar que o navegador era do Porto, o da doação de bens, em testamento, ao Mosteiro de S. Domingos do Porto, que existia ali perto do atual Mercado Ferreira Borges. “Na realidade, a doação é não a esse mosteiro, mas ao de D. Domingo das Donas do Porto, o atual convento Corpus Christi, em Gaia, onde eram freiras umas primas de Fernão de Magalhães”, referiu.

Ponte da Barca

Excluídas estas hipóteses, Amândio Barros explorou a de Ponta da Barca, sustentando nos vínculos genealógicos do navegador a sua convicção de que nasceu naquele conselho. As famílias Sousas, Meneses e Magalhães terão tido, segundo o autor, uma “forte implantação (…) no Entre Douro e Minho e, em concreto, nas terras minhotas da Ribeira do Lima”. Mais: existe “um lugar (hoje freguesia) chamado Paço Vedro de Magalhães, isto é, ‘Paço Velho de Magalhães’ que reforça essa convicção”. Há vários documentos, como heranças e provisões régias, relativos à tia de Fernão de Magalhães, D. Isabel de Meneses, e ao próprio navegador que demonstram a ligação deste a Ponte da Barca.

Mas, para o historiador, “o documento mais esclarecedor”, “aquele que depois de devidamente analisado e contextualizado deixa muito poucas, ou nenhumas dúvidas acerca da naturalidade barquense de Magalhães é o requerimento de 1567, apresentado por Lourenço de Magalhães ao Conselho das Índias, pelo qual reclamava a herança do navegador”.

O processo garante, “apresentava um rol de inquirições de testemunhas que decorreu no mês de Abril de 1567, em Ponte da Barca, Ponte de Lima e Braga. Trata-se de testemunhos decisivos para determinar a naturalidade de Magalhães”.

A este propósito, o historiador acrescenta que “as inquirições demonstravam ainda que o glorioso iniciador da primeira viagem de circum-navegação pertencia à estirpe dos Magalhães, senhores da Terra da Nóbrega, fidalgos de cota de armas e solar. O mais velho dos depoentes, João Garcia Belo, de Ponte da Barca, conhecera-o perfeitamente, assim como ao pai”.

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