O que seria escrever “sem dificuldade”?
Odilons Soares Leme
Especial para a Folha de S. Paulo

Em recente edição, uma revista de circulação nacional afirmou, a respeito de programas de alfabetização de jovens e adultos, que “a maior parte dos alunos logra pouco mais que aprender a traçar o próprio nome, pois não segue estudando”. Isso ajuda a entender um dado estatístico apresentado na mesma matéria: “Para a maioria dos brasileiros, ler o nome de uma rua ou escrever uma lista de compras são tarefas impossíveis. (…) apenas 26% da população com idade entre 15 e 64 anos consegue ler e escrever sem dificuldades”.

Pode ser problemático estabelecer os limites do que se considera “ler e escrever sem dificuldade”. De qualquer modo, aferir se o candidato está ou não dentro desses limites é a finalidade da prova de língua portuguesa, com destaque para a redação, nos exames vestibulares.

O que constrange, porém, é verificar, nos meios de comunicação, sinais claros de “dificuldades” inadmissíveis em quem tem o falar e escrever como profissão. Daí a declaração enfática do poeta Ferreira Gullar em recente crônica (Ilustrada, 9/10): “Decididamente, não aceito que se dê como certo escrever nos jornais e falar na televisão coisas como “as milhões de pessoas” ou “um dos que fez”.” É sintomático que as duas expressões dadas como “exemplos” derrapem exatamente no terrenos da concordância. O gênero masculino do substantivo milhão exigiria os milhões de pessoas; o plural de dos (= daqueles) exigiria um dos que fizeram.

Mas há exemplos mais dolorosos, porque mais graves e canhestros, como “(…): executivos da montadora são acusados de pagar prostitutas brasileiras para participarem de festas, na qual políticos alemães também estariam presentes”. Festas, na qual?!

Se há uma questão de concordância em que os professores se esmeram é a que focaliza a construção da voz passiva sintética. O famoso “vende-se casas” é devidamente execrado e corrigido. Como o verbo vender é transitivo direto e o se é pronome apassivador, o sujeito é casas.

Portanto o correto é vendem-se casas, equivalente da passiva analítica casas são vendidas. Mas parece que alguns faltaram a essa aula, e então encontramos num jornal “Os moradores da rua Manuel Morais Pontes estão comovidos. Por lá, só se ouve elogios ao clã”. Se por lá só são ouvidos elogios, então por lá só se ouvem elogios.
Será que se pode dizer que quem escreve assim escreve sem dificuldade?

publicado no http://vestibular.uol.com.br/ultnot/resumos/ult2772u65.jhtm

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