Comissão UnB 50 anos de Brasília.
Barbara Freitag traça a história das capitais brasileiras

22/05/2009 – z
20h03min: 39

A história das três capitais brasileiras revela peculiaridades da formação política do país. Salvador, Rio de Janeiro e Brasília foram palcos de importantes transformações e dos mais curiosos fatos, como relatou a socióloga Barbara Freitag, professora emérita da Universidade de Brasília. Em duas horas de conferência, na manhã de sexta-feira, 22 de maio de 2009, ela apresentou a história e os muitos acasos existentes na trajetória das cidades que foram os centros do poder no Brasil.
“Salvador e Rio tem a mesma fisionomia, a mesma praça, a mesma configuração urbana. São litorâneas e repetem a tradição de Lisboa”, explicou a cientista social, nascida na Alemanha, ex-aluna de importantes intelectuais como Theodor Adorno e Jünger Habermas.
As duas primeiras capitais brasileiras, Salvador e Rio de Janeiro, foram fundadas em meio a grandes imigrações portuguesas. Duas mil pessoas deixaram o país europeu em 1547 para a capital baiana, após o fracasso das capitanias hereditárias. Um contingente um pouco menor veio ao Rio de Janeiro no início do século 19. Só que, dessa vez, intelectuais e integrantes da corte do país europeu.
Diante de uma platéia atenta, formada por professores e estudantes, Barbara recontou com humor e detalhes a história da transferência da capital da coroa portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. “Dom João saiu fugido. Tinha medo de Napoleão e dos ingleses. Trouxe tudo. Até o tesouro português. Deixou Lisboa a míngua. Até hoje os portugueses não gostam de Dom João”, brincou.
A chegada da família real, destacou Barbara, é um fato inédito na história mundial. Nenhuma outra colônia, senão o Brasil, abrigou em seu território o reino da metrópole. Rio de Janeiro recebeu um título maior do que sede do poder nacional, passou a ser a capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Na época, os portugueses temiam as guerras e conquistas do imperador da França, Napoleão Bonaparte.
NACIONALISMO – Entre tantos episódios peculiares na história das capitais, Brasília é um capítulo recheado nacionalismo e idealismo. Os traços da cidade, mais que um projeto arquitetônico inovador, significaram a tentativa de construir uma nova nação, mais igualitária. Sonho que não se realizou.
“Os ‘riscos’ (em referência aos rabiscos de Lúcio Costa) de Brasília por si só não teriam força de mudar a dinâmica da cidade e corrigir os problemas sociais e econômicos brasileiros”, avaliou Barbara. As cidades-satélites que surgiram ao redor da capital federal e o Entorno refletem a estratificação social da realidade do Brasil. “Quanto mais perto da Praça dos Três Poderes, mais privilégios.”
Todos os prédios de Brasília foram projetados iguais, de forma a serem abrigados por uma população sem distinções. O desenho base para a construção da cidade não contava, entretanto, com a possibilidade de os operários permanecerem na região. Eles, grande parte agricultores que aprenderam a ser pedreiros na prática, criaram as primeiras cidades-satélites.
“Essa dimensão contraditória de Brasília é a prova de que uma cidade só pode ser construída pelos atores sociais. A capital é uma obra aberta que espera por mais 50 anos”, ressaltou o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Júnior. Barbara lembrou que mesmo Lucio Costa, urbanista que idealizou a capital, mostrou-se contente com as mudanças realizadas pela população ao visitar Brasília em 1987. “Ele admirou a capacidade de adaptação do povo”, disse a socióloga.
Em breve, as histórias das capitais brasileiras estarão reunidas em livro. A socióloga Barbara Freitag lançará, até o fim do ano, a obra Capitais migrantes, poderes peregrinos pela editora Papirus. A palestra de Barbara integra calendário de atividades definido nesta quinta-feira, 21 de maio, pela Comissão UnB 50 anos de Brasília.
UnB Agência

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