Primeiros habitantes das Ilhas Canárias eram berberes
Estudo luso-espanhol publicado na BMC Evolutionary Biology
2009-10-22

Origem evolutiva da população das Ilhas Canárias
Uma equipa de investigadores portugueses, liderados por António Amorim, do IPATIMUP, e espanhóis levou a cabo um estudo genético molecular sobre o cromossoma Y (que define o sexo masculino), na comunidade aborígene das Ilhas Canárias, para determinar a sua origem e saber como é que sobreviveram à população atual.

Segundo resultados obtidos, a origem da linhagem paterna é norte africana, já a materna foi praticamente substituída hoje pela européia. Investigadores da Universidade de La Laguna (ULL), do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) e o Instituto de Medicina Legal da Universidade de Santiago de Compostela analisaram o cromossoma Y a partir de despojos de dentes encontrados nas ilhas.

Determinou-se uma evolução na linhagem paterna com origens da Era pré-hispânica até aos nossos dias. É de referir que apenas o DNA mitocondrial foi estudado – o que refere meramente evolução do lado materno (acreditava-se que o DNA mitocondrial era passado para a prole unicamente através da mãe, mas já foi relatado que ocasionalmente pode ser herdado a partir do pai).

Análise feita a um dente aborígene
Rosa Fregal, autora principal do artigo recentemente publicado na «BMC Evolutionary Biology», e investigadora do Departamento de Genética da ULL, explicou que “ao passo que linhagens maternas aborígenes sobreviveram subtilmente, as paternas foram progressivamente, sendo substituídas pelas européias”.

Os especialistas analisaram também uma amostra histórica de igreja La Concepción (Tenerife), cujas datas remetem para os séculos XVII e XVIII. Através deste estudo, conseguiram estabelecer o impacto da colonização européia e do comércio de escravos africano; assim como a evolução de traços aborígenes da Ilhas Canárias ou Guanches (povo nativo da região), desde a Era pré-hispânica.

Durante este período, a maior parte das relações entre o sexo masculino e feminino eram estabelecidas entre homens ibéricos e mulheres guanches, “dada a posição social dos primeiros”, avançou Fregel. Os cientistas afirmam que existia maior taxa de mortalidade nos aborígenes por serem discriminados pelos conquistadores e “não apenas durante a conquista de Castela, no século XV, mas mesmo depois”. Já no caso das linhagens sub- Saharan, “ambos os sexos eram discriminados” e traços tanto do lado materno como paterno foram diminuindo.

Mulheres com traços europeus e homens ibéricos
Traços de colonização européia

Um estudo anterior sobre o cromossoma Y na atual população das Ilhas Canárias revelou o impacto da colonização européia nos homens. A investigadora espanhola refere que foram encontrados traços “em 90 por cento”. Contudo, a análise mitocondrial do DNA demonstrou uma notável sobrevivência da linhagem aborígene, enquanto que a contribuição européia se mantinha entre os 36 e 62 por cento.

Ibéricos e europeus contribuíram fortemente para o patrimônio genético masculino da região: aumentando 63 por cento desde os séculos XVII e XVIII; por outro lado, os genes aborígenes diminuíram 31 a 17 por cento e nos genes Sub-Saharan, de seis a um por cento.

Já no caso das mulheres, a contribuição européia sobressai em maior escala do que a aborígene. Apesar dos avanços, ainda há mistérios que permanecem não resolvidos, como saber “se os primeiros habitantes vieram pelos seus próprios meios ou se foram trazidos à força, já que não há sinais de terem conhecimentos de navegação ou se vieram de uma só vez ou chegaram aos poucos”, concluiu Rosa Fregal.