O início das religiões no Estado do Amapá.

Os caminhos da vida espiritual

A presença dos missionários católicos no Amapá, acontecida deste os primeiros anos do século XVII, constituiu-se como ação indispensável, tanto para o desenvolvimento da moral como também para a educação, cuja história tem nos jesuítas traços marcantes. Por outro lado, deve-se observar também que a esse tempo a Igreja tinha seu atrelamento ao Estado, e sua sobrevivência de primeiros tempos sem dúvida alguma dependia desse atrelamento. Desde a Idade Média, os eclesiásticos eram mantidos – e por isso mesmo subordinados a eles – pela Coroa à qual a área era subordinada. Em troca, o envio de gordas anuidades compensava todos aqueles religiosos nos serviços de colonização e processos de subalternidade do índio ao colono. Esse processo metodológico de interiorização deu certo na Ásia, teve alguns resultados (com reservas) na África, e por que poderia ser diferente no Brasil?
Em 1618, a história registra a chegada dos padres franciscanos ao Pará onde iniciaram a construção de um convento no UMA, região do atual Val-de-Cans, em Belém. Dos franciscanos partiram os primeiros processos inquisitoriais do Santo Ofício. Em 1626 chegava o frei Cristóvão de Lisboa a Belém, que veio, através de nomeação papal, como ‘Custódio do Norte e Comissário do Santo Ofício e da Mêsa de Consciência”. Sobre a ação do Santo Ofício em Macapá não existem notícias, a não ser de dois autos isolados de condenação a um português e um espanhol, acusados de heresia. Eles foram enviados à Espanha onde foram indiciados. Dos abusos “bárbaros” do “Santo Ofício”, que tem mais de demoníaco do que de santo, a História Medieval relata, com bastante meticulosidade, seus exageros, e isso não constitui “segredo de Estado”. Mas nem tudo foi perdido, e este período negro tende a ficar para trás.

A CONQUISTA ESPIRITUAL
Os carmelitas chegam em 1626. Existem poucos registros acerca da ação desses missionários, mas sabe-se que eles estiveram aqui, e pelo menos quatro missões situaram-se no vale do Araguari. Os jesuítas foram a terceira congregação a chegar, e o ano foi 1636. Chefiados pelo padre Luís Figueira, eles vieram para assumir missões mais perigosas como “civilizar” o índio, fundar missões religiosas e ajudar o governo do Pará na construção e mapeamento de vilas. Devido à ação política que desses trabalhos resultava, os militantes da Companhia de Jesus foram mal compreendidos, o que resultou em duas expulsões do Cabo do Norte; a primeira em 1660, por terem defendido o direitos dos índios que estavam sendo explorados por comerciantes portugueses, e a segunda em 1757, por problemas com o governador do Grão-Pará Mendonça Furtado.
Além das expulsões os jesuítas sofreram represálias, tais que chegaram à tortura e à morte, como aconteceu em 1687, quando dois (Antonio Pereira e Bernardo Gomes), foram tragicamente trucidados pelos índios por influência dos comerciantes locais.
Os primeiros padres amapaenses, Fernando da Costa Meninéia e José da Penha Martins (de Macapá) e Antonio Flexa Valente e José Armindo Castilhos (de Mazagão) foram ordenados em 1765 pelos jesuítas, após um trabalho apostólico bem apurado de evangelização.
Em 1758, mesmo antes da fundação da vila de S. José de Macapá, é lançada a pedra fundamental da futura Igreja de São José, cuja inauguração se dará em 6 de março de 1761, na presença do governador do Pará, Bernardo de Souza Castro, e de um enviado do bispo do Pará, d. Frei João Queiroz.
Marco histórico, também, da presença dos jesuítas, foi a fundação da primeira escola primária em Macapá, em 15 de abril de 1799: a Escola Provincial São José, tendo como primeiro professor e diretor o padre jesuítas Sebastião Dias de Azevedo. Os alunos desta escola, na maioria filhos de índios Tucuju, recebiam aulas de gramática portuguesa e latina, religião, matemática e história portuguesa. Em 1911 chegaram os primeiros missionários da Sagrada Família (MSF). Em 1916 aparecem em Macapá as primeiras idéias protestantes, através dos pentecostais. Em 1948 vêm os padres do Pontifício Instituto das Missões. Este é um pequeno resumo da presença dos religiosos católicos no Amapá.

Contribuição folclórica
Remontam a essa época a maior parte das manifestações folclórico-religiosas atuais, fruto do maravilhoso trabalho de catequese dos antigos missionários, que souberam adaptar os atos externos da fé cristã à mentalidade, costumes e tradições indígenas. Assim, as festividades foram organizadas à moda índia; proclamações, esmolações, folias, representações dos principais episódios da vida do santo ou do mistério cristão. O arraial surgiu, com a finalidade prática de proporcionar comida e pousada aos visitantes e romeiros… tudo acompanhado pelo rufar cadenciado dos tambores e propagado por ruidosas e multicoloridas multidões, carregando bandeiras e executando suas danças rituais, ao redor de mastros simbólicos.

As vilas
Com a expulsão dos jesuítas em 1757, termina a epopéia das missões. Os aldeamentos, antes orientados pelos religiosos, são elevados à categoria de vilas e suas igrejas tornam-se sedes de paróquia. Com a supressão das missões, faltou também a assistência contínua do missionário e sua vigilância sobre as coisas da religião. Enfraqueceu a fé que, influenciada por crendices índias e africanas, desembocou nos atuais cultos afro-brasileiros.
Das dezenas de missões fundadas por franciscanos e jesuítas em terras amapaenses, poucas conseguiram sobreviver por algum tempo: Santana do Cajari, Bailique, Arrayolos, Santo Inácio do Matapi… e nenhuma chegou aos nossos dias.
Quanto às missões fundadas na área de predominância francesa, chegaram até nós Cunani, Vila Velha do Cassiporé e Curipi.
Contudo, é inegável que se inicia nessa época um verdadeiro desenvolvimento do Amapá, uma vez que Portugal, não tendo conseguido povoar com aldeamentos índios sua região fronteiriça, trouxe para Macapá famílias açorianas e africanas para Mazagão. Surgem, então, as vilas de São José de Macapá (1758), Vistosa da Madre de Deus do Anauerapucu (Vila Nova, 1756), Mazagão do Mutuacá (Mazagão Velho, 1771), e a Colônia Militar Pedro II, no Rio Araguari (1840).

Padre Amapaenses
Durante estes primeiros anos de catequese, no lado brasileiro a região ficou dividida em três paróquias: Macapá, Mazagão e Bailique. As paróquias acima eram dotadas de padres residentes, e é interessante citarmos que entre estes sacerdotes haviam vários filhos da terra, como o macapaense Fernando da Costa Mininéia e os mazagananses José Martins da Penha, Antonio Valente Flexa e José Castilhos. Na parte referente ao estudos da presença jesuítica, abaixo, existem informações mais detalhadas sobre esses primeiros padres.

1626 – Os Carmelitas
Os carmelitas são membros de uma ordem de frades da Igreja Romana, cujo nome oficial é Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. A ordem foi fundada no Monte Carmelo, na Palestina, provavelmente no século XVII, e rapidamente se espalhou pela maior parte da Europa. Inicialmente os carmelitas obedeciam severas normas de conduta. Em 1431, por ordem do papa Eugênio IV, essas normas foram relaxadas. Santa Tereza de Ávila em 1562 fundou uma ordem de freiras carmelitas. Em 1580, quatro carmelitas portuguesas vieram para o Brasil onde, a partir de então, os membros dessa Ordem desempenharam importante papel como missionários educadores. A chegada, pela primeira vez, desses missionários ao Cabo do Norte, se deu em 11 de janeiro de 1626 para ajudarem no processo de catequese do índio. Não sendo os primeiros, pois os franciscanos os precederam em 1618, mesmo assim eles foram os pioneiros na obra de evangelização. Em 1626, por ocasião de sua chegada, o próprio governador do Pará, Maciel Parente, e donatário da Capitania do Cabo do Norte, lhe fez doação de suas próprias casas em Almerim, para os mesmos se instalarem. Os trabalhos missionários dos carmelitas no Brasil são pouco conhecidos.

1626 – Franciscanos e Capuchinhos
Os franciscanos constituem uma ordem religiosa também conhecida como dos frades menores, fundada por São Francisco de Assis que, seguido por onze discípulos, se dirigiu a Roma a fim de obter a sanção papal através de Inocêncio III, que concedeu-lhes a permissão oral para se tornarem clérigos e viverem em obediência. A inauguração formal e aprovação da primeira regra se deu em 1209. Em 1517, após inúmeras tentativas de união provocadas por ortodoxos e heterodoxos, após a morte do fundador, o papa Leão X dividiu os franciscanos em dois ramos distintos e independentes, cada qual com seu próprio ministério e capítulo geral e sua próprias províncias. Em cerca de 1525 surgiram os Capuchinhos, que pretendiam ser a reforma mais aproximada do ideal primitivo, tornando-se em 1619 uma ordem distinta dos franciscanos. Por causa disso, o papa Leião XII agrupou os franciscanos em três ordens diferentes: os Conventuais, os Observantes e os Capuchinhos. Os Conventuais foram autorizados a várias dispensas papais relativas à pobreza, podendo possuir propriedades. Os Observantes são identificados hoje como franciscanos simplesmente. Os Capuchinhos constituíram as ordens 1ª, 2ª (à qual pertencem as freiras) e 3ª, composta de homens e mulheres, uns levando vida monástica e comunitária, observando os três votos religiosos de Pobreza, Castidade e Obediência; outros levando a vida secular, mas dedicada à piedade, aos pobres e aos enfermos.
No tempo da Reforma Protestante, a ordem chegou a atingir a casa dos cem mil membros. No Brasil chegaram os franciscanos em 1585, fundando sua primeira casa em Olinda. Em 1618 já se ouvia falar de frades franciscanos instalados no Grão Pará, onde construíram um convento no UMA (atual Val de Cans), passando a organizar aldeias em apoio de seu trabalho de catequese entre os indígenas. Em 1626 chega o frei Cristóvão de Lisboa a Belém, como Custódio do Norte e Comissário do Santo Ofício e da Mesa de Consciência. Assim tornou-se intenso o trabalho dos missionários, pesar das imensas tristezas no confronto com índios hostis.
Em 1647, por exemplo, foram trucidados dois frades: Bernardo de Constanza e Antonio de Saint-Saveur, pelos índios do Cabo do Norte, motivados pela pouca tática a que os franciscanos estavam acostumados. Por isso mesmo, houve nova reformulação da autorização real, e a partir de 1654 franciscanos e capuchinhos passaram a trabalhar de acordo, com tarefas específicas, passando a serem confiadas a eles o reconhecimento e mapeamento de novos territórios, e aos jesuítas a pacificação de tribos e alianças com nações indígenas.
Em 1660, o vale do Araguari estava bem assistido pelos missionários franciscanos, protegidos por uma fortificação mandada construir na boca do rio Batabouto, pelo capitão Pedro da Costa Favela. Apesar de não terem residência fixa, esses missionários passaram a visitar todas estas paragens. Assim as terras foram colonizadas, aldeias e missões surgiram com os índios sendo “apaziguados”, passando a experimentar estilos europeus de vida.
Até mesmo no Bailique existiam missões franciscanas em 1660, pois o rei de Portugal, D. Pedro II, escrevendo ao governador do Pará, recomenda-lhe a construção da fortalezas na costa do Cabo do Norte. “… E vos valereis dos missionários capuchos do Santo Antonio que têm missões no Bailique…”.
Em 1691, o Marquês de Ferrolles, da Guiana Francesa, passou a reclamar da presença do forte do Batabouto, construído pelo capitão Pedro da Costa Favela, representendo, segundo eles, uma ameaça à soberania dos franceses alojados nas imediações. O governador Antonio Coelho de Carvalho, em correspondência datada de 16 de novembro, rebate as acusações e participa ao governador francês que comerciantes e garimpeiros franceses praticaram vários desatinos nas missões. E quanto à existência do forte, ele servia unicamente para proteger os missionários. “…tinham (os invasores) se introduzido nas missões dos capuchos entre os índios Aruan”.
Novos atritos passaram a sofrer franciscanos e jesuítas, com relação à definição das tarefas. Em 12 de janeiro de 1701, D. Pedro II, de Portugal, aconselhado pelo seu ministério, especifica a tarefa de cada um, autorizando que as missões do Jari fossem devolvidas aos franciscanos. Porém, para as tarefas mais perigosas que pedissem a colaboração dos militantes da Companhia de Jesus. A ligação, subordinação e a interferência mútua entre a Igreja e o Governo ainda se fazia notar muito naqueles primeiros tempos do século XIX.
Em 1805, o frei Raimundo da Pureza transportava para Arroyo, nas ilhas Bailique, as telhas e imagens sagradas da antiga Igreja de Vila Vistosa da Madre de Deus do Anauerapucu, cuja população foi dizimada por uma epidemia de cólera, levando os sobreviventes a fixarem residência nas imediações do Bailique e Ilha de Santana.
De 1805 até 1990, não se tem notícias dos Capuchinhos. A partir de 1991 se fixou uma comunidade em Macapá, com um convento e uma igreja.

1652 – Os Jesuítas
A intensificação do trabalho missionário jesuítico se dá a partir da chegada do padre João de Souto Maior em 1652. Coube ao padre João a fundação do colégio de Santo Antonio em Belém. A partir desse ano as terras do Cabo do Norte passaram a ter neles, evangelizadores sistemáticos e constantes. Outra tarefa de Souto Maior foi em 1654, quando passou a estabelecer laços de amizade com os Aruaque, ajudando-os a vencer os Aniba, seus inimigos. A vitória sobre os Aniba teve a ajuda de 70 soldados e 400 índios ao comando do major João de Bittencourt Muniz.
Algum tempo depois, os Aruaque consentiram a fundação de uma missão chamada Jari, que passou, em seguida, às mãos dos franciscanos. Mais tarde essa missão tornou-se vila, com a denominação de Fragoso, com uma igreja paroquial. Desavenças e descontentamentos entre comerciantes e exploradores fizeram com que esses jesuítas fossem expulsos do Cabo do Norte por duas vezes: a primeira ocorreu em 1660 e a segunda em 1757.
Em 1666 os padres de Santo Inácio começaram a exploração da Guiana Francesa, mas houve um movimento sistemático de trabalhos evangélicos ao norte e sul da Capitania, produzindo um trabalho magnífico que constou de levantamentos cartográficos, exploração de rios e fundação de escolas. É nesse período – que vai de 1672 a 1800 – que tiveram início as primeiras coletas de dados feitas por pesquisadores de várias nacionalidades, sobre festas, danças, teatro sobre a vida dos santos, folias e o arraial, que surgiu com a finalidade prática de proporcionar comida e pousada aos visitantes e romeiros.
Também entre os jesuítas houve quem fosse martirizado pela exploração dos comerciantes e aventureiros entre os índios, que se dividiam provocados pela lábia desses. Em 1687 os jesuítas Antonio Pereira (natural do Maranhão) e Bernardo Gomes (Pernambuco) se estabeleceram na região do Cabo do Norte, fixando residência em uma ilha do lago Camonixary. O governador Antonio Coelho de Carvalho e o padre Aloísio Conrado Pfeill, que os tinham acompanhado, ajudaram-nos na construção de uma casa, deixando-os depois de algumas semana, entregues aos trabalhos de evangelização. No dia 13 de setembro, um grupo de índios insuflados pelos comerciantes massacra os dois padres brasileiros. Seus corpos, encontrados pelo padre Aloísio são transportados para Belém e sepultados solenemente na igreja de Santo Alexandre.
Uma Carta-Régia de Portugal, datada de 12 de abril, proclama uma nova repartição das terras entre as congregações religiosas. Aos jesuítas coube a margem direita do Amazonas; aos capuchos de Santo Antonio as terras do Cabo do Norte e a margem esquerda do Amazonas, desde o Atlântico até o Paru (Almeirim), e aos frades da Piedade o rio Xingu e o distrito de Gurupá.
As missões do rio Jari estavam sendo bastante positivas. A esse tempo, o padre Antonio Cunha encontra os Waiãpi (Guiapises) que haviam emigrado do sul do Pará, além dos Mocura, que estavam sendo assistidos desde 1700 pelos franceses que passavam a lhe dar presentes, em troca de algumas terras para o estabelecimento de feitorias. Em 1709 o padre Antonio Cunha consegue dissuadir esses índios da amizade dos franceses. Deslocando-se para o baixo Jari, eles passam a constituir uma missão, tornada oficial em 1710, através da Carta Régia datada de 2 de julho, que autoriza a Companhia de Jesus a explorar e catequizar os índios de ambas as margens do rio.
Coube ao jesuíta Miguel Ângelo de Morais, acompanhar algumas famílias açorianas ao mando do governador Mendonça Furtado, com a incumbência de darem início à povoação de Macapá em 1751. O próprio padre Miguel Ângelo os ajudou, juntamente com o coronel João Batista de Oliveira e uma guarnição sob seu comando, à construção de casas para as famílias e barracos para servirem de alojamento aos soldados que seriam enviados para cá. Mesmo acusados de terem protegido contrabandistas famosos como Pedro Braga e Francisco Portilho, perseguidos e temidos em toda a região, eles conseguiram, em 6 de junho de 1755, a abolição, por completo, da escravidão indígena do Pará e Maranhão. Mas o que ficou caracterizado por abolição, foi apenas uma troca: os índios escravizados foram libertados, mas a partir desse ano teve início a fase mais negra (literalmente falando) da história: a exportação de escravos africanos.

1911 – Missionários da Sagrada Família (MSF)
O ano de 1911 marca a vinda dos primeiros missionários da Sagrada Família (MSF) para residirem em Macapá. Esses primeiros religiosos MSF foram João Henrique Paulsen, Hermano Elsink e irmão Boaventura Hammouche, que deram por fundada oficialmente a comunidade em 14 de agosto. Esses padres permaneceram com a gente até 1948, quando passaram a região para o comando do Pime (Pontifício Instituto das Missões). Em 1912 chega o quarto padre: José Maria Lauth, para assumir a função de superior local, ficando aqui até 1923.
De todos esses missionários, o que teve maior atuação foi o padre belga Júlio Maria Lomberdi (* 1878 – Werghein, na França; + 1941, Manhumirim, Minas Gerais, Brasil). Padre Júlio chegou em Macapá em 27 de fevereiro de 1913 para assumir a função de vigário da Paróquia de São José. Em 1916 funda a Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, entregando o hábito às duas primeiras postulantes, na capela de Santo Antonio em Belém. Foi durante o governo do padre Júlio que apareceram os primeiros protestantes em Macapá.
A Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, obra do padre Júlio, passou a funcionar em Macapá a partir de 13 de dezembro de 1916, constituída de religiosas que passaram a assessorar o sacerdote nos trabalhos de pastoral da juventude e da catequese da criança.
A atuação do padre Lombarde se deu também na cultura. Foi ele quem fundou o primeiro cinema em Macapá, que passou a funcionar próximo à igreja de São José (Não confundir com o ex- Cine João XXIII que iniciou a partir de 1963 com os padres do Pime). Vários artigos sobre a vida, o cotidiano e a história da cidade, ilustrando as páginas do jornal Correio de Macapá, foram de autoria desse padre belga, hoje guardados por colecionadores particulares, constituindo documenta´rio importante.
Além de Lombardi, outros sacerdotes vieram engrossas a turma dos missionários da Sagrada Família, como Teodoro Werbeck, que chegou em 1920 para atuar nos serviços de pastoral paroquial, permanecendo com a gente até 1934. O padre Francisco Gemig veio em 1924, e assumiu a saída da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, fundada por seu colega Lombardi, para Icoaraci.. Em 1931 chega o padre Felipe Blanke para o governo da paróquia de São José de Macapá, permanecendo até 1947. O padre Blanke assistiu à chegada do primeiro governador do Amapá, Janary Nunes. Em 1933 chega Antonio Schult, permanecendo até 1948.
O período compreendido entre as duas guerras mundiais massacrou profundamente a vida missionária do Amapá, principalmente os padres de nacionalidade alemã. Em 1942, foi preciso uma intervenção do arcebispo de Belém para que o delegado de polícia da capital paraense concedesse salvo-conduto aos padres alemães, para exerceram seu ministério. Sacerdotal. E os missionários da Sagrada Família foram substituídos pelos padres do Pime, que chegaram a partir de 1948.

1948 – Missionários do PIME
Muito embora a chegada oficial dos primeiros missionários do Pime (Pontifício Instituto das Missões) tenha ocorrido a partir de maio de 1948, a presença do Instituto data da mesma época do recém-criado Território Federal do Amapá, em 1943, através de missionários que vieram de São Paulo em desobrigas. Neste período já existiam algumas paróquias como Mazagão, Amapá e Macapá, que já fazia parte da recém-construída Prelazia de Santarém, com apenas um pároco responsável por todas as paróquias.
A grande ajuda dos missionários da Sagrada Família (MSF), que desde o início do século XX atuavam na igreja de Macapá, foi significativa para preparar o terreno dos novos missionários.
De acordo com o padre Ângelo Bubani (Pequeno Histórico da Diocese de Macapá, Macapá-AP, 1985), os primeiros padres residentes do Pime a chegar ao Amapá foram Aristides Piróvano (que se tornou superior local e primeiro bispo de Macapá) e Arcângelo Cérqua. Ambos inicialmente atuaram na Pastoral Paroquial.
Eles chegaram aqui no dia 29 de maio de 1948. Dom Aristides ficou até 1965, quando foi nomeado Superior Regional do Pime em Roma. Arcângelo Cérqua foi em 1952 para Manaus, onde assumiu o governo regional do instituto.
Marcaram presença como padres pioneiros, além de d. Aristides e o padre Arcângelo, os padres Vitório Galliani, Ângelo Bubani, Carlos Bassanini, Luís Vigano, Mário Limonta, Lino Simonelli, Jorge Basile e Irmão Francisco Mazolene. Estes vieram na segunda leva de missionários, ocorrida em 19 de junho de 1948. Vitório Galliani faleceu em Macapá em 1983; Carlos Bassanini em 1973, e Mário Limonta abandonou o sacerdócio em 1949, um ano depois. Foi com a chegada desses missionários que a Pastoral da Juventude e os movimentos mariais tiveram novo avivamento.
Na imprensa, a presença do padre Jorge Basile teve momentos decisivos, entre eles a criação da Rádio Educadora, que ficou no ar até 1974 e teve que fechar as portas por “esforço” da ditadura militar.
Na terceira viagem que fizeram ao Estado, vieram engrossar as fileiras os padres Simão Corridori, Ângelo Negro, Pedro Locati e Antonio Cocco (dezembro de 1948). O padre Dário Salvalaio chegou em 13 de maio de 1950, mas faleceu seis anos depois (20.03.1956), vítima de hidrofobia. Nesse mesmo ano chegam também os padres Ângelo Pighin, Mário Fossati e Irmão Martinho Minelli. De 1953 até 1972, o Pime enviou para o Amapá o correspondente a 46 padres, o que deu bastante impulso à Igreja Católica do Amapá. A partir de 1972, a “Região Missionária do Amapá” foi desmembrada da do Brasil-Sul, passando a ser governada por um próprio superior geral. O primeiro da lista foi o padre João Airaghi (1972 a 1975). Seu substituto foi Rogério Alicino (1975 a 1977), que deu importante contribuição à História do Amapá, com o lançamento da obra “Clevelândia do Norte” (Bibliex, Rio de Janeiro, 1975), seguido de Lino Simonelli (1978 a 1981).
A atuação do Pime foi de grandiosa importância para o desenvolvimento social, apostólico e missionário no Estado. Destacam-se, aí:
– O orfanato São José, em Ilha de Santana;
– O pensionato São José, atrás da Catedral
– As escolas paroquiais São José (extinta), São Benedito, Padre Dário e Dom Aristides Piróvano, em Macapá, além de outras no interior do Estado.
A importância política desta instituição missionária se fez por ocasião dos períodos mais cruentos da história contemporâna do Amapá, principalmente no período da ditadura militar a partir de 1964, onde o jornal Voz Católica e a Rádio Educadora eram verdadeiras forças de resistência, onde vários missionários tiveram que deixar o país, movidos principalmente pela defesa da causa dos desfavorecidos pelo novo regime de então. Entre eles, destacam-se os padres Gaetano Maielo e Domenico Bottan.
O Pime se notabilizou pelo trabalho pioneiro na educação através das escolas, na saúde através dos trabalhos de assistência médica aos interioranos e, sobretudo, na promoção social do habitante do Estado, onde vários nomes figuram como patronos de escolas (Dário Salvalaio) e ruas (Vitório Galliani e Carlos Bassanini), além de centros comunitários (José Maritano).

As Primeiras Paróquias
Precedendo a Prelazia de Macapá, as paróquias começaram a surgir a partir de 1752, fruto de um trabalho missionário intenso dos jesuítas, franciscanos e capuchinhos. Assim, a primeira paróquia que antecedeu ao surgimento da vila de São José (1758) foi criada com o nome do futuro padroeiro e surgiu em 1752.
A paróquia de São José de Macapá foi fundada pelo bispo do Pará, dom frei Miguel de Bulhões e Souza. O primeiro vigário, padre Miguel Ângelo de Morais, jesuíta, chegou em 28 de janeiro. Nessa época, a paróquia estava subordinada ao Maranhão. Miguel Ângelo permaneceu por longo tempo em Macapá, ajudado pela Coroa Portuguesa que lhe dava, ajudado pela Coroa portuguesa que lhe dava anualmente uma contribuição de 80 mil réis. A necessidade de se construir uma igreja de grande porte na povoação, para que se pudessem centralizar melhor os serviços da Paróquia, inspirou no jesuíta Miguel Ângelo que, através de insistentes pedidos, sensibilizou o governador Mendonça Furtado, que passou a pedir encarecidamente. Após pedidos insistentes, foi possível em 1758, no mesmo dia da criação da vila (4 de fevereiro), o lançamento da pedra fundamental da futura igreja de São José de Macapá, cuja inauguração se deu em 1761, três anos depois, com a presença do governador do Pará, Bernardo de Mello e Castro, por ordem do bispo de Belém d. frei João Queiroz. A bênção oficial da Igreja se deu em 20 de março, véspera de São José.
Dos vigários quer por aqui passaram, merecem considerações maiores os padres Francisco José Pereira (1787 a 1792), o amapaense Fernando da Costa Meninéia (1792 a 1800), Felipe Santiago de Vilhena (1842 a 1850), José Martins da Penha (1851 a 1855), Joaquim Manoel de Jesus (1855 a 1862), cônego Estulano Alexandrino Baía (1870 a 1873), Orodico Mendes da Silva (1884 a 1862), Genésio Ferreira Lustosa (1887 a 1895) e Francisco Rellier (1903 a 1911). A partir de 1904, a paróquia de São José passa a pertencer à Prelazia de Santarém até 1950.
A partir de 1912 a paróquia passa a ser dirigida pelos missionários da Sagrada Família, tendo como primeiro vigário o padre José Maria Lauth (1912 a 1913), padre Júlio Maria de Lombardi (1913 a 1923) e padre José Berchold (1923 a 1932). O último dessa Congregação fica de 1932 a 1947, quando a partir daí a Igreja de Macapá passa a ser assistida pelos missionários do Pontifício Instituto das Missões (Pime)
A Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, em Mazagão, surge em 1845, tendo como patrona N. S. da Assunção (Mazagão Velho), muito embora esta localidade já tenha tido sua primeira igreja com residência anexa para o padre a partir de 1773, com parede de taipa, coberta de palha e piso de chão batido, excetuando-se o presbítero que foi soalhado.
Paróquia de N. S. da Conceição, no Bailique, foi a terceira a surgir no Amapá, em 1883 (3 de dezembro). O padre Genésio Lustosa foi seu primeiro vigário.
Paróquia do Divino Espírito Santo, Município de Amapá – Surge em janeiro de 1904, passando a pertencer inicialmente à Prelazia de Santarém até 1950. Se originou da construção de uma capela em madeira, edificada em 1880 pelo casal Antonio e Maria Antonia Principal, através de donativos que foram coletados pelo casal. O primeiro vigário da Paróquia foi o padre Feliciano Fusay, que governou até 1912, quando faleceu. Após sua morte, a paróquia ficou sendo governada pelo padre Ermano Elsink (MSF) cumulativamente com Mazagão. Em 1919 passou a ser atendida pelos padres de Macapá. Em junho teve início a construção de um templo para substituir o de madeira, construído em 1880, tendo sofrido várias reformas ao longo do tempo. Na nova construção, foram aproveitando os tijolos de uma fortaleza antiga que os franceses, no século anterior, tinham deixado inacabada, próximo à atual sede do município. Em 1922, o novo vigário, padre José Maria Lauth (MSF) reinicia a construção, que passou para o padre Felipe Blanke em 1930, mas ela só foi oficialmente inaugurada como Igreja Matriz em 28 de fevereiro de 1959, já na administração do Pime.
Outras paróquias – Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Santana, 1954), Nossa Senhora da Conceição (Macapá, 1959), Nossa Senhora das Graças (Oiapoque, 1959), Nossa Senhora de Fátima (Macapá, 1964), Nossa Senhora do Brasil (Porto Grande, 1964), São Benedito ( Macapá, 1964), Nossa Senhora dos Navegantes (Região das Ilhas, 1974), Sagrado Coração de Jesus (Macapá, 1978), São Pedro (Macapá, 1978), Nossa Senhora de Fátima e Santos Ambrósio e Carlos (Santana, 1979), Cristo Libertador (São Joaquim do Pacuí, 1982) e Santa Bárbara (Serra do Navio, 1983).

Prelazia de Macapá
Foi com os padres do Pime que surgiram a Prelazia e a Diocese de Macapá. A Prelazia foi criada em 1 de fevereiro de 1949, pelo papa Pio XII, com a bula Unius Apostolicae Sedis. Isto aconteceu com o desmembramento da Prelazia de Santarém. A instalação se deu em 30 de março de 1950. Nesta mesma data, a então matriz de São José é elevada a Catedral. Quem oficializou o evento foi o arcebispo de Belém, dom Mário Miranda Villas Boas.
Os primeiros administradores da nova Prelazia foram, pela ordem, dom Anselmo Pietrulla (administrador apostólico – 1949) e frei Domingos Hermans OFM (vigário capitular de Santarém e Macapá – 1950). A partir daí, todos os administradores da Prelazia passaram a ser do Pime: Aristides Piróvano (1950 a 1956) e José Maritano (1956 a 1980).

Diocese de Macapá
A partir da Diocese de Macapá, o último padre do Pime a governá-la foi o primeiro da nova Diocesa: José Maritano (1981 a 1983). Ela foi criada pelo papa João Paulo II, com a bula Conferentia Episcopalis Brasiliensis, de 14 de novembro de 1980 e solenemente instalada por dom Vicente Zico, arcebispo de Belém, em 5 de julho de 1981.

PRESENÇA PROTESTANTE NO AMAPÁ
Os primeiros missionários a chegar em Macapá, com idéias protestantes, foram os pentecostalistas (Assembléia de Deus), em 1916. O movimento pentecostal começou no mundo em 1906, na Califórnia, com o pastor W. L. Seymour, que baseou-o sobre o dom das línguas, tendo como fundo histórico o acontecimento ocorrido entre os apóstolos (Pentecostes), eles passaram a falar línguas estranhas. O movimento espalhou-se por todas as principais cidades norte-americanas, gerando muitos adeptos.
Em 1910, desembarcaram em Belém do Pará os primeiros missionários da nova religião: Daniel Berg e Gumar Vingreu, provenientes de Nova Yorque (EUA). Eles vieram da Igreja Batista e, como encontraram vários motivos bíblicos que não se enquadravam com a vida missionária que levavam, resolveram aderir ao novo movimento religioso.
No Amapá, coube a um boliviano de nome Clímaco Bueno Aza, convertido à nova religião em 1913, no interior do Pará, a trazer as idéias da Assembléia de Deus a Macapá. Ele chegou em 26 de junho, com malas cheias de bíblias, folhetos e evangelhos. Somente alguns dias depois a cidade tomou conhecimento da presença do evangelista.
O movimento em Macapá formou-se mediante muitas perseguições. Desde Clímaco chegou a Macapá, foi vítima de vários ataques, chegando mesmo até a uma decisão radical do vigário da cidade, então padre Júlio Maria de Lombaerde, a queimar os livros em praça pública, com a ajuda da polícia e convocação da população. Mas Clímaco não desanimou e persistiu. Houve uma segunda viagem, desta vez com reforços e um salvo-conduto do chefe-de-polícia de Belém que, mediante o preceito constitucional da liberdade religiosa, conseguiu com melhor empenho desenvolver seu movimento aqui.
Em 1917 chega outro evangelista da Assembléia de Deus, de nome José de Matos, dando continuação ao trabalho de Aza. Assim, em 27 de junho de 1917 José de Matos funda a Assembléia de Deus em Macapá. Num sábado, 30 de junho, aconteceu “o primeiro batismo com o Espírito Santo”. Em 21 de agosto de 1958 foi consagrado novo templo, desta vez situado no centro da cidade, na Rua Tiradentes com Presidente Vargas.
No início de 1955 chegam os batistas à capital. O templo da Primeira Igreja Batista é inaugurado em 31 de julho desse mesmo ano, pelo missionário Kyller Robert Lawrence, norte-americano, falecido em 1996.
Os adventistas e presbiterianos aparecem em 1968. Os demais vieram a partir da década de 70, com todas as suas ramificações.
O movimento espírita surgiu em 1966, primeiro a partir do ramo umbandista. Os do ramo kardecista marcaram presença em 1967.
Em 1990 chegam os movimentos orientalistas, entre eles a Seicho-No-Iê e o movimento messiânico.

Conclusões gerais
A conquista espiritual da região do Cabo do Norte, como vimos, foi executada, nos primeiros tempos, sob o prisma da política expansionista do império espanhol e, em seguida, do império luso. Após as primeiras descobertas sentiram as duas Coroas que o trabalho missionário, principalmente dos militantes da Companhia de Jesus, poderia ajudar, tanto no processo de conversão dos habitantes ao Cristianismo, o que lhes garantiria a submissão política, com o também esses mesmos gentios lhes ajudariam no reconhecimento oficial das terras e na exploração de suas riquezas minerais.
Pode-se concluir, então, que os trabalhos, na realidade, não eram meramente missionários? As congregações religiosas estavam financeiramente dependentes do Poder Temporal dos governantes, e as condições impostas para o exercício catequético eram muitas, que quem contrariasse os acordos era severamente punido. Exemplo disso aconteceu com os jesuítas, que sofreram duas expulsões.
Por outro lado, os primeiros avanços no desenvolvimento cultural e educacional foram proporcionados por esses religiosos. As primeiras escolas tiveram neles os primeiros educadores. As contribuições para o campo cultural, com o aparecimento de festas religiosas, festivais, quermesses, e até mesmo o cinema, faz-se notar aí.
Como não poderia ser diferente no Amapá, a religião se dinamizou, patrocinada pela expansão protestante da Reforma de Lutero. Os incidentes ocorridos em 1916 não conseguiram freiar as novas idéias religiosas, que se multiplicaram e deram novas opções ao livre exercício constitucional da prática religiosa. De 1916 para cá, a cidade presenciou o surgimento desses novos tempos, cujos fiéis conquistaram seus espaços, e tentam viver harmoniosamente com todos os outros movimentos, talvez em busca de um mesmo objetivo, apesar dos diferentes caminhos que conduzem a Deus.

 

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