Sairé: cultura amazônica reunida em Santarém

Uma das principais cidades do Pará nos aspectos econômico, político ou cultural. Assim é Santarém, privilegiada, dentre outros motivos, pela sua diversidade cultural, cuja formação é resultado das contribuições trazidas pelos povos vindos das diferentes regiões do Brasil e de outras nações. Quando o assunto é cultura, Santarém se destaca, pois seu rico patrimônio cultural inclui elementos como, monumentos, construções antigas, peças arqueológicas, indumentárias, culinária, danças, religiosidade, mitos, crenças populares, música, artesanato, cerâmica, literatura e folclore.
Mas o principal elemento cultural é mesmo o povo santareno, também chamado de “mocorongo”. Sua formação, segundo a professora mestra em História da Amazônia, Terezinha Amorim, resulta da mistura entre índios, negros e europeus, com predominância da raiz indígena. Mas essa mistura vem sofrendo uma influência significativa por causa da chegada, sobretudo, dos nordestinos, dos confederados e até de asiáticos. O resultado disso é o surgimento de uma cidade multifacetada.

Uma mostra é a mistura de cores e de raças que, despida de qualquer preconceito, revela histórias como a do casal Raimundo Navarro (ex-vereador e professor aposentado) e Marilza Serique (professora universitária). Ele é natural na região do Tapajós, mas é neto de portugueses e espanhóis que chegaram ao Brasil no século passado. Ela também nasceu na região do Tapajós, mas é filha de judeus e de descendentes de índios da região.

ARTESANATO

Maria das Dores, Elves Costa, Gilmar Rego, Maria Benedita de Sousa e Mestre Izauro do Barro, são os mais expressivos artesãos da cerâmica santarena, com destaque para Mestre Izauro que é reconhecido mundialmente. Izauro é oleiro desde os 10 anos de idade e hoje com 90 anos, tem peças espalhadas pelo Brasil inteiro e até fora do país.

Uma das figuras mais conhecidas do mundo artístico paraense. Assim é a artesã, modista e estilista santarena Dica Frazão. No casarão antigo onde mora, há 62 anos, Dica criou um dos pontos turísticos de Santarém. Lá funcionam seu ateliê e museu particular, criado em 1999. Nascida Raimunda Rodrigues, no município de Capanema (PA), a estilista conta que suas criações já ganharam o mundo.

Das suas mãos nasceram peças que foram presenteadas à rainha da Bélgica, ao Papa João Paulo II, a Juscelino Kubitschek. O que faz de seu trabalho algo tão especial é a matéria- prima com a qual cria suas peças. São entrecascas de uma árvore misteriosa, cujo segredo é mantido a sete chaves pelos índios Mundurucus, fornecedores do produto; fibras extraídas do capim canarana; palha de buriti; sementes e raízes da Amazônia.

A cerâmica de Santarém também conhecida como cerâmica dos Tapajós, advém de uma cultura, “considerada como a de maior distribuição na bacia amazônica e, cronologicamente, aceita como protohistórica”. Estudos mostram que o grupo indígena Tapajós localizava-se na foz e ao longo do afluente da margem direita do Amazonas – o Rio Tapajós.

>> Sairé: 300 anos de manifestação cultural
A festa do Sairé é considerada a mais antiga manifestação da cultura popular da Amazônia. Ela existe há mais de 300 anos e sua origem remonta ao período da colonização, quando os padres jesuítas, na missão evangelizadora pela bacia do rio Amazonas, envolviam música e dança na catequese dos índios. Essa é a hipótese mais provável, pois antes da catequização, os indígenas não conheciam a religião cristã.

Com as mudanças ocorridas ao longo desses 300 anos, o Sairé foi ganhando novos contornos. Atualmente, é festejado em setembro e consiste em um ritual religioso que se repete durante o dia, culminando com a cerimônia da noite, quando acontecem as ladainhas e as rezas, seguida da parte profana da festa, representada pelos shows, com apresentações de danças típicas e pelo confronto dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. Ao todo, são cinco dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós.

Mas a história dos 300 anos do Sairé é um tanto quanto “acidentada”. Sofreu uma paralisação de 40 anos, entre 1943 e 1973, voltando a ser realizada por iniciativa de moradores da vila de Alter do Chão. Até meados do século passado, a festa tinha significação puramente religiosa, celebrando a Santíssima Trindade, com um semicírculo (o Sairé) de cipó torcido, envolvido por algodão e enfeitado com fitas e flores coloridas. O símbolo possui três cruzes dentro do semicírculo e outra na extremidade, representando as três pessoas da Santíssima Trindade e um só Deus. E foi uma criação indígena com base nos escudos portugueses.

Em lugar da cruz de Cristo que adornava os símbolos portugueses, o Sairé, possivelmente inspirado por algum missionário católico, associou o mistério da Santíssima Trindade, utilizando a imagem da pomba que representa o Espírito Santo. Esse estandarte segue à frente da procissão, conduzido por uma mulher, que recebe o nome de Saraipora. (Diário do Pará)

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